Foto: Patrícia Stanton

Para assinalar o dia 1 de junho, mais conhecido como o Dia Mundial da Criança, o Primeira Mão decidiu conversar com algumas crianças maiatas, alunos na Escola Básica de 1ºCEB / JI nº1 de Gueifães (Centro Escolar), na tentativa de entender quais os desafios que a pandemia coloca às crianças.

Rodrigo, Francisca, Olívia, Francisco, Joana e Martim foram os nossos entrevistados, todos com idades compreendidas entre os 9 e os 10 anos. 

Uma mensagem para o “monstro”

Rodrigo tem 10 anos e começa por dirigir-se ao coronavírus com tristeza. “Ele estragou tudo o que nós gostávamos, a família que íamos visitar todas as semanas, tudo o que gostávamos de fazer, de um momento para o outro, parou”. “Gostava de dizer-lhe que ele é horrível”, acrescenta.

Francisca, de 10 anos, exprime os mesmos sentimentos que o colega em relação ao monstro invisível. “Também gostava de lhe dizer que ele é horrível. Matou muitas pessoas e fez mal a muita gente”. A menina revela que “o coronavírus marcou-me muito” e que, frisa, “vai ficar na história do planeta”.

Também Olívia, de 9 anos, deu o seu recado: “muitas pessoas perderam os seus empregos, muitas morreram e muitos países entraram em crise. Eu queria dizer ao coronavírus para ir embora, porque ele não está a causar nada de bom”.  

Os alunos tiveram de ficar em casa fechados, como o resto das pessoas. E para uma criança pequena, a experiência de não poder observar o mundo lá fora pode ser bastante frustrante. Rodrigo expressa que sentiu “muitas saudades” dos colegas e da escola e o facto de ter ficado confinado “em casa” levou o menino a relembrar os tempos em que “era tudo livre, quando todas as pessoas andavam felizes e que víamos a alegria no mundo inteiro.”

Francisca também sentiu alguma ansiedade por ter de ficar em casa, até “porque ninguém gosta de ficar fechado”. No entanto, afirma que o segundo confinamento foi menos severo, pois “já estávamos mais preparados”. A jovem refere também que ainda hoje, só sai de casa “por uma boa causa” e que nunca prescinde da máscara.

O desafio das aulas online

Francisca revela não ter tido grandes dificuldades na aprendizagem à distância, mas não esconde preferir “muito mais a escola”. Os motivos são o facto de “não podermos ver os nossos colegas e os nossos professores”, “e também porque os professores explicam muito melhor” presencialmente.

Nos primeiros dias tivemos que nos adaptar”, mas depois Rodrigo também se habituou às aulas online. “No primeiro confinamento aquilo foi tudo uma dificuldade” e “foi uma mudança que tivemos de fazer”. Na ideia de Rodrigo, a oscilação entre as aulas em casa e na escola vai permanecer “se as pessoas não tiverem cuidado lá fora e cá dentro”.

E as dificuldades não surgiam só da parte dos alunos, já que muitas vezes “a net falhava bastante” refere Francisco, de 10 anos. Adicionalmente, “todos falavam ao mesmo tempo”, o que trazia problemas de comunicação e, consequentemente, as turmas tinham de ser divididas, o que originou uma redução do número de horas de aula. O aluno afirma ter sido um período “mau em termos de aprendizagem”.

Mas as aulas presenciais não foram a única coisa que estes alunos tiveram de abdicar. Francisco, por exemplo, viu-se forçado a adiar o recomeço dos treinos de futebol.

Olívia também fazia fisioterapia, mas devido à “pandemia tive de parar”.

Já Martim, também com 10 anos, teve de deixar a natação. Segundo ele, “faz-me imensa falta ir à natação”.

Cuidados de higiene são para todos

As crianças são as mais alheias às “sujidades da vida”. Mas se antes, brincar no chão era natural, agora tornou-se algo quase proibido. Rodrigo diz ter demorado “umas semanitas” a interiorizar todos os cuidados de higiene necessários ao “novo mundo”. Para ele, o facto de todas as pessoas estarem a tomar tantas medidas de higiene só demonstrou que “estavam cheias de pânico”. A utilização de máscara numa fase inicial da pandemia também se demonstrou um incómodo para estas crianças, no entanto já todas se adaptaram bastante bem.

Para além dos cuidados de higiene, a escola também teve de implementar medidas, e estas, foram as que se revelaram mais difíceis para as crianças. Francisco começa por explicar que o espaço na escola é mais limitado e que isso “às vezes se torna mais difícil”. Assim, na hora do recreio, cada turma tem um espaço atribuído no recinto escolar.

Mas talvez quem sofra mais com esta divisão, sejam Joana e Martim, que no âmbito do projeto NEMESIS desenharam um jogo lúdico no chão do recreio e ainda não puderam usufruir na totalidade do mesmo. Martim diz que muitas vezes “queria estar lá e não posso”.

Mas Olívia é mais positiva em relação ao assunto e refere que “a escola já está a voltar aos poucos ao normal”. A jovem “acredita que as coisas vão melhorar com o tempo e que depois vamos poder voltar a ser felizes e a ir para todos os lugares que quisermos”.

O ser humano “aprendeu a sorrir com os olhos”

O Dia Mundial da Criança está à porta e nesse sentido, questionamos os alunos da Escola de Gueifães acerca do que devia ser feito para o assinalar.

Joana começa por abordar o facto de não achar que o covid “tenha sido uma coisa assim tão má” e que para ela, se traduziu numa “fase de aprendizagem, mas com momentos maus”. Por isso, se neste dia “falassem mais sobre isso, talvez as crianças ficassem mais tranquilas e interiorizassem que daqui a algum tempo pode voltar tudo ao normal”. Entre as aprendizagens a que a jovem se refere, uma delas foi o ser humano “começar a sorrir com os olhos”.  

E se Joana considera que deviam ser dirigidas mensagens de esperança para todas as crianças da Maia, para que elas possam encarar melhor o futuro, Martim é da mesma opinião. O aluno também aborda que a EB1 de Gueifães está a fazer uma campanha de solidariedade, em que doa materiais e alimentos para as crianças de Guiné-Bissau, pois “lá está muito mau”.

Conscientes da realidade de alguns países como a Guiné-Bissau, os alunos concluem que se sentem bem em ajudar os outros. A recolha de materiais é feita entre “alunos e pais” e a envolvência das crianças neste tipo de ações é importante, para que no futuro se tornem em adultos conscientes e solidários. O aluno também aborda que a EB1 de Gueifães está a fazer uma campanha de solidariedade, em que doa materiais e alimentos para as crianças de Guiné-Bissau, pois “lá está muito mau”.

Conscientes da realidade de alguns países como a Guiné-Bissau, os alunos concluem que se sentem bem em ajudar os outros. A recolha de materiais é feita entre “alunos e pais” e a envolvência das crianças neste tipo de ações é importante, para que no futuro se tornem em adultos conscientes e solidários. 

Ouça o Podcast de Francisco e Olívia aqui.